Neste post vamos mostrar que é possível fazer bons pães usando farinha comum de supermercado, desde que respeitadas suas limitações de absorção de água e força do glúten. Para essa receita usaremos a farinha de trigo Renata que é uma farinha bastante conhecida e de fácil acesso na região sul e sudeste do Brasil.

Quando usamos farinhas comuns de supermercado, geralmente usamos uma menor quantidade de água em relação a quantidade de farinha, o que chamamos de hidratação, do que quando usamos farinhas mais fortes. Para esta farinha que estamos usando, inicialmente iremos usar uma hidratação de 68%, ou seja, 68% do peso da farinha em água. Note que a hidratação de 68% não funciona para qualquer farinha comum que encontramos nos supermercados do Brasil. Algumas farinhas vão suportar uma porcentagem de água menor do que outras. A única forma de saber quanto a sua farinha em específico suporta de água sem perder a estrutura e ficar mole a ponto de não conseguir manipular, é testar. Comece com uma hidratação baixa, por exemplo 60% e vai subindo de 2% em 2% nas próximas fornadas e anotando os resultados. Com testes, chegamos na porcentagem de 72% de hidratação com essa marca de farinha em específico.

Você pode deixar aqui nos comentários quais farinhas você usa ou já usou e que hidratação elas suportaram. Isso vai ajudar as pessoas que estão começando a fazer pães artesanais.

Autólise

Em uma tigela, junte 320 ml de água com 500 g de farinha de trigo e misture, mas não sove, pois iremos apenas hidratar a farinha. Cubra a tigela e deixe descansar por 30 minutos. Esse processo é chamado de autólise e vai deixar nossa massa mais maleável para os próximos passos. Uma segunda limitação das farinhas comuns é que o glúten presente geralmente é mais fraco e, para esses casos, uma autólise mais curta é indicada. Passado os 30 minutos de autólise, a massa deve estar bem mais elástica.

Adição do fermento biológico

Em seguida, dilua 1/8 de colher de chá de fermento seco (menos de 1g) em 20 ml de água. Não se preocupe por não saber ou conseguir pesar exatamente 1g de fermento. A ideia é mostrar que para essa receita usamos bem pouco fermento mesmo. Então coloque a pontinha de uma colher de chá ou uma pitada com a ponta dos dedos indicador e polegar de fermento biológico seco. Se for biológico fresco e tablete, coloque um pedacinho de fermento.

Diluir o fermento em água facilita sua incorporação na massa.

Incorpore o fermento dissolvido à massa e misture bem. Faça buraquinhos na massa com a ponta dos dedos, assim o fermento se distribui  por toda a massa. Misture bem até que todo o fermento esteja incorporado. Isso deve demorar de  2 a 3 minutos. A massa ficará um pouco pegajosa devido a adição de mais água. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.

Adição do sal

Espalhe a massa na tigela e distribua o sal pela superfície da massa. Molhe as mãos o necessário para que a massa não grude em suas mãos, mas com o cuidado de não incorporar água demais a massa. Na sequência aperte o sal com os dedos para dentro da massa. Em seguida faça dobras na massa por 2 ~ 3 minutos, para desenvolver um pouco mais o glúten. Para isso, estique uma parte da massa para cima e dobre-a sobre ela mesma, como mostrado no vídeo. Faça esse movimento em toda a extensão da massa. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.

Dobras e 1ª fermentação

Vamos fazer duas séries de dobras para continuar o desenvolvimento do glúten: 

1ª Série de dobras. Molhe as mãos com um pouco de água, pegue um lado da borda da massa e estique-a sobre ela mesma. Gire a tigela e repita. Faça esse movimento em toda a extensão da massa por aproximadamente 30 segundos.

Cubra e deixe descansar por 20 minutos

2ª Série de dobras (coil folds): Coil fold é uma forma bem gentil de trabalhar com a massa, preservando bem a cadeia de glúten desenvolvida até o momento.

Com as duas mãos levante a massa a partir do meio. Os quatro dedos devem estar abaixo da massa e apenas os polegares acima dela. Levante a massa deixando-a esticar até que uma das pontas se solte da tigela. Volte a massa para a tigela com as pontas soltas embaixo do meio da massa. Vire a tigela e repita o processo.

Veja no vídeo a partir de 5 minutos e 10 segundos. Faça dobras por aproximadamente 30 segundos. Nesta última dobra fizemos algumas coil folds apenas para mostrar essa outra opção, você pode continuar fazendo dobras, se preferir. Se notar que o seu glúten ainda não está totalmente desenvolvido e a massa lisa como no vídeo, faça mais uma ou duas séries de dobras com descanso de 20 minutos. Cubra a tigela e deixe fermentar até a massa triplicar de volume.

Como referência, geralmente fazemos essa massa à noite e deixamos fermentar durante a noite, aproximadamente 12 horas de fermentação. A temperatura da minha cozinha estava entre 20 e 23 °C durante a noite. Se onde você mora for mais quente do que isso, é provável que precisará de menos tempo para a massa fermentar. Nesse caso, faça a massa de manhã e vai monitorando o seu crescimento durante o dia, ou faça a noite e crie uma forma de reduzir a temperatura da massa. Por exemplo, colocando a massa para fermentar no forno desligado e com a luz apagada e colocar uma outra tigela com gelo ou água gelada ao lado para baixar a temperatura interna do forno.

Modelagem

Após fermentada, a massa precisa estar com grande volume e cheia de bolhas. Polvilhe farinha de trigo na bancada, nas mãos e por cima da massa. Retire a massa da tigela e faça o formato desejado. Fizemos em formato oval, mas pode ser qualquer formato que desejar. Faça movimentos de arrastar a massa na mesa para criar tensão na superfície da massa. 

Coloque a massa em um banneton (cesto de fermentação) enfarinhado, se possível com farinha de arroz. A farinha de arroz evita que a massa grude no banneton. Caso não tenha farinha de arroz, polvilhe com farinha de trigo.

Cubra o banneton com um saco plástico. Se não tiver um banneton, use uma tigela, preferencialmente funda, com um pano de prato polvilhado com farinha dentro, transfira a massa e cubra com as pontas do pano de prato e com um saco plástico.

A função do banneton ou da tigela é manter a estrutura e formato do pão, evitando que ele se espalhe e fique um pão achatado depois de assado.

2ª Fermentação

Depois da primeira fermentação e modelagem, vamos para a segunda fermentação que pode ser feita de duas formas:

1 – Deixe fermentar em temperatura ambiente por cerca de 1 hora e em seguida asse.

2 – Deixe na geladeira fermentando por no mínimo 4 horas. O tempo máximo vai depender muito da qualidade da farinha, da temperatura da massa, além de outros fatores. Então, eu diria que a maioria das farinhas comuns aguentam bem até 12h na geladeira. Porém, não há necessidade de fermentar por muito mais tempo na geladeira, uma vez que a massa já fermentou por bastante tempo na primeira fermentação.

Eu prefiro colocar na geladeira, pois acho que além de obter mais sabor, facilita fazer o corte (scoring) e fica mais firme para colocar na panela. Evite fermentar por muito mais tempo do que isso, pois a massa pode fermentar demais (overproof) e perder a estrutura, além de achatar na hora de assar.

Como assar

Pré-aqueça o forno a 250ºC por no mínimo 30 minutos com a panela e a tampa dentro. Após esse tempo, retire a massa do pão da geladeira. Não há necessidade de voltar a massa em temperatura ambiente antes de assar. Pode assar vinda direto da geladeira.

Corte um pedaço de papel especial para assar e coloque em cima do banneton com a massa. Utilize uma tábua, ou assadeira para colocar por cima e inverta-a rapidamente, para que a massa fique sobre o papel.

Se você não tiver esse papel especial, você pode apenas salpicar um pouco da farinha na panela e assar sem papel. Eu gosto de usar, pois acho que facilita a transferência da massa para a panela, evitando queimaduras. Apenas não indico o papel manteiga comum, pois eles costumam grudar na massa.

Remova o excesso de farinha com um pincel, se achar necessário. Faça o corte desejado na superfície da massa com uma gilete. O corte facilita a expansão da massa dentro do forno.

Transfira a massa para a panela quente e tampe. Asse o pão com a panela tampada por 20 minutos a 250ºC. Após 20 minutos, retire a tampa, abaixe a temperatura do forno para 220 ºC e asse por mais 20 minutos ou até chegar na coloração desejada. Deixe o pão esfriar por no mínimo uma hora antes de cortar.

Um pão bem assado deve ter um barulho oco quando batemos no fundo do pão (ver vídeo).

O pão fica com uma linda coloração caramelo, uma casca crocante por fora e muito macio por dentro. A textura interna deve ser bem leve. Se ficou pesado e meio massudo (lembrando um pouco a textura de pão de queijo), provavelmente o pão não fermentou o suficiente ou não foi assado corretamente.

Pão (tipo) italiano com farinha de trigo comum tipo 1

Esse pão italiano fica super macio por dentro e com uma casquinha firme e crocante. Farinhas comuns tipo 1 que encontramos no supermercado também fazem excelentes pães de longa fermentação. Nessa receita vamos mostrar como 🙂

Ingredientes
  

Para pão com 68% de hidratação:

  • 500 g farinha de trigo tipo 1 (usamos da marca Renata)
  • 340 ml de água (320 ml + 20 ml separado) em temperatura ambiente
  • 12 g de sal
  • 1 g de fermento biológico seco ou 3g do fermento fresco, aproximadamente

Para  pão com 72% de hidratação:

  • 500 g farinha de trigo tipo 1 (usamos da marca Renata)
  • 360 ml de água (340 ml + 20 ml separado) em temperatura ambiente
  • 12 g de sal
  • 1 g de fermento biológico seco ou 3g do fermento fresco, aproximadamente

Como fazer
 

  • Em uma tigela, misture 320 ml de água com 500 g de farinha de trigo. Cubra e deixe descansar por 30 minutos.
  • Dilua 1/8 de colher de chá de fermento seco em 20 ml de água (menos de 1 g, ou seja, uma pitada). Deixe descansar por 30 minutos.
  • Após 30 minutos, incorpore o fermento dissolvido à massa e misture bem. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.
  • Espalhe a massa na tigela e distribua o sal pela superfície da massa. Em seguida faça dobras na massa por 2 ~ 3 minutos. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.
  • 1ª Série de dobras. Faça dobras por aproximadamente 30 segundos. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.
  • 2ª Série de dobras. Faça dobras por aproximadamente 30 segundos. Cubra e deixe descansar por 20 minutos.
  • Cubra a tigela e deixe fermentar até a massa triplicar de volume. De 10 a 12 horas, dependendo da temperatura do local.
  • Polvilhe farinha de trigo na bancada, nas mãos e por cima da massa. Retire a massa da tigela e faça o formato desejado.
  • Coloque a massa em um banneton (cesto de fermentação) enfarinhado. Cubra o banneton com um saco plástico. Na sequência temos duas opções:
    1 – Deixe fermentar em temperatura ambiente por cerca de 1 hora e em seguida asse.
    2 – Deixe na geladeira fermentando de 4 h a 24h. Nesse caso não precisa esperar a massa voltar em temperatura ambiente antes de assar. Simplesmente retire da geladeira e coloque no forno.

Como Assar

  • Preaqueça o forno a 260 ºC por no mínimo 30 minutos, com a panela e a tampa dentro.
  • Após esse tempo, retire a massa do banneton e remova o excesso de farinha com um pincel, se achar necessário.
  • Faça o corte desejado na superfície da massa com uma gilete ou faca bem afiada. Transfira a massa para a panela quente e tampe.
  • Asse o pão com a panela tampada por 20 minutos a 260 ºC.
  • Após 20 minutos, retire a tampa e abaixe a temperatura do forno para 220 ºC e asse por mais 20 minutos ou até chegar na coloração desejada.
  • Deixe o pão esfriar por no mínimo uma hora antes de cortar, isso evita que o vapor (umidade) do pão escape e ele fique seco depois de frio.

Notas do Padeiro

Como a hidratação que usamos (68%) não é muito alta os alvéolos ficam menores. Alvéolos são aqueles buraquinhos de fermentação no miolo do pão. Pães com alvéolos maiores são obtidos com hidratação mais alta, ou seja, colocando mais água na massa. No entanto, farinhas comuns podem não suportar uma hidratação alta e a massa pode ficar extremamente mole e difícil de trabalhar. O pão geralmente tende a ficar achatado e sem volume. Nesse caso, você provavelmente precisará usar farinhas mais fortes e que suportem hidratação bem mais alta.
Testamos também essa mesma farinha Renata com hidratação de 72%, ou seja 4% maior do que os 68% que mostramos. A farinha suportou bem a hidratação e eu particularmente achei que o miolo ficou mais macio e úmido. Os alvéolos ficaram muito parecidos com a versão de 68% de hidratação. Em termos de textura do pão, eu gostei mais da versão de 72%. Essa farinha talvez aguente uma hidratação ainda maior, mas não testamos. 
 
Se você fizer essa receita, nos marque no Instagram com a tag @padeirodeapartamento e a hashtag #padeirodeapartamento ficaremos felizes em ver o seu resultado.

Vídeo

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7 comentário(s) em “Pão tipo italiano com farinha comum tipo 1

  1. Olá, tenho feito está receita de pão italiano e reparei que, nesta fornada, apareceram partes com grãos escuros (como faço pra te mandar foto?).
    Gostaria de saber se poderia me ajudar a entender o que pode ser isso.
    Obrigado,
    Ricardo Limonge
    #meupaonosso

  2. Muito boas suas receitas, adorei! Para essa de pão italiano você tem uma sugestão de quantidade de fermento natural para substituir? Obrigada 🙂

    1. Oi Tania! Temos varias receitas desse mesmo pão mas com fermentação natural aqui no site e várias em nosso canal do YouTube. De uma olhadinha 🙂 Um abraço!

  3. Na descrição do vídeo no YouTube, aparece 3g de fermento biológico seco, quando deveria ser fresco.

  4. Olá padeirodeapartamento!
    Fiz esse pão rústico pela primeira vez e gostei. Assei na panela de vidro, utilizei a farinha da marca Fina, reduzi um pouco a quantidade de água.
    Casquinha crocante, talvez precisava fermentar mais um pouco na geladeira, deixei por 4h. A massa de dentro ficou um pouco borrachuda “não sei se fica assim mesmo porque nunca tinha experimentado esse tipo de pão.
    Obr!

    1. Oi Jamile! Obrigado pelo seu relato. O tempo de fermentação depende muito da temperatura. Em dias frios pode ser que leve mais do que quatro horas e dias quentes menos. Experimente marcas de farinhas diferentes, elas produzem miolos bem distintos também. Veja o que mais te agrada. Um abraço!

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